terça-feira, 23 de janeiro de 2007

Solidariedade

Temos todos unir os nossos esforços Em conversa com um amigo, ontem à noite, contava-me ele o que lhe tinha acontecido na sua ida ao médico, a Lisboa. Explicou-me com um misto de raiva e saudade.
Nos tempos que correm, em que cada um desconfia do vizinho do lado, é bom saber que ainda há solidariedade.
Trata-se de uma história real. Leia...

Estação da CP, em Entrecampos. São 11:30, vou com tempo...pois o comboio é só às 11:57.
Já a tinha visto ao longe. Pelo porte fisíco, pelos óculos grandes, fez-me lembrar a minha falecida mãe. Ao aproximar-me deu dois passos na minha direcção. Fixei-a. Antes mesmo de dizer fosse o que fosse, percebi que não era uma pedinte normal:
«Senhor, por favor...», o braço estendido, cinco cêntimos na cova da mão que pareciam querer desmentir-me: «Sou das Caldas da Raínha, vim ao médico».
Do saquito, daqueles de papel, que se dão nas lojas, sobressaiam dois ou três, daqueles envelopes dos exames radiologicos: «Fui assaltada no metro, levaram-me a carteira». Não tinha, de facto, a habitual bolsinha que todas as mulheres usam: «Podia-me ajudar com alguma coisa para eu comprar o bilhete para as Caldas?».
Eu sei quando se pede por "ofício" e quando se pede, envergonhado, por necessidade:
«Quanto custa o bilhete?», perguntei, olhando a mísera moeda de cobre de cinco cêntimos que tinha na concha da mão: «Oito euros e 60...». Eu questionei-a: «Mas... foi roubada? Disse à polícia?». Resposta triste e evergonhada: «Sim, mas não podem fazer nada...».
E lembrei-me de quando a minha mãe ainda era capaz de ir sozinha para o IPO. Podia ter acontecido com ela.
E aquela mulher não o podia adivinhar.
Com cinco cêntimos na mão, obra, concerteza, do "descargo de consciência" de alguém que tinha chegado antes de mim, a pobre mulher nunca mais arranjava o dinheiro para poder voltar a casa: «Venha comigo», disse-lhe. E fui à bilheteira onde lhe comprei o bilhete. Da nota de dez euros sobrou 1,40 euros, que lhe dei: «Vá tomar um cafezinho, ou um chá... acalme esses nervos. Tenha cuidado com a mala, na próxima vez. E... tenha uma boa viajem. Fica mesmo nas Caldas? De lá não precisa ir para outro lado? Precisa de mais dinheiro?»
Não sei. Ela virou-me as costas para esconder o que era imposível esconder. Chorava.
Não fui capaz de ficar.
Virei-me, também eu e fui tirar o meu bilhete na máquina. Acendi um cigarro e subi a escadaria.
Se fosse a minha mãe, gostaria que a tivessem ajudado.
E eu não fiquei mais pobre.
Não sou de dar "esmolas" mas senti uma estranha calma interior.
Espero que a senhora tenha chegado bem a casa. E que consiga perceber que...não me ficou a dever nada.


Depois de ouvir a história, não resisti a partilhá-la com todos. Talvez porque ontem, umas horas antes, no supermercado, um homem recusou dar o seu lugar na fila, a uma senhora, que lhe pediu a vez, porque tinha deixado as duas filhas pequenas no carro, só para pagar três caixas de croquetes.
Porque deixámos de ser solidários?

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